quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Tonturas (Fragmentos)



Pronto a cair a qualquer momento,
Distraído por um breve falsear da pisada da vez,
Roubada a firmeza dos passos pela tonturas
Eu pendo para os lados, rendido das minhas certezas.

O alto da minha cabeça em pane.
Antes não fui assim

Custo a contar os anos
E admitir minhas várias derrubadas
(de tanto derrubar ando meio tonto)
Já não me protejo das tempestades anunciadas
Ou carrego qualquer convicção.

Na verdade não sei muito bem quem sou
Sou um em muitos, primeiro,
Depois todos a tornarem-me inteiro de novo.

Telefonema na Avenida Santo Amaro


Atendo o telefone aflito
Pois enxergo embassado o número
Que no visor tenta me avisar quem é.
(já não sou capaz de dispensar os óculos).

Depois de ouvir sua voz
Digo um “alô” agressivo
Pois não sei dizer outro que prenuncie
Melhor a ausência de vínculos que
É preciso hoje imprimir em nossa conversa.

Vínculos entre nós não cabem mais.
São indesejados, agora,
Inconvenientes e até perigosos.
Outros prevalecem.

Não sei dizer a você um “alô” sem nossos vínculos,
(que não podem mais existir)
Aqueles que antes viviam, ponta a ponta,
Plugados em mim e em você,
Hoje cadáveres que me enredam teimosamente,
Soltos de um lado,
Desconectados,
Senão mortos quase sem prévio aviso,
Órfãos de pai ou mãe.




Sexo



A cada palavra gosto mais de mim
E também delas,
Apesar de infiéis:
Se entregam sem reservas a quem quer que as maneje,
Seguro da conquista,
Com o ritmo da graça e
A força da luxúria.

Tenho ciúme das minhas palavras
Pois não as posso reter.
Estão na minha boca e,
Promíscuas,
Na bocas de qualquer um.
São levianas pois não preferem,
Se deixam possuir por vários a cada instante.

Sou amante de palavras fáceis,
Que vivem nas madrugadas,
Encostadas nos postes da minha cidade,
Disponíveis em qualquer esquina.

Entro nelas e elas em mim
Desejo minhas palavras e elas também me desejam
Até que exaustas e satisfeitas
De mim marcadas, do meu tesão,
Durmam profundamente.

E eu também adormeço ao lado delas
Certos, eu e elas, de que amanhã nos amaremos mais
Ainda que eu encontre outras mais palavras
E elas infinitas outras mãos.






Sem Graça


Tua mão no entorno da minha cintura
Me viro e dou com você.

Fico sem-graça
Te querendo pertinho um tempo mais.

Pouso minha mão sobre a tua um segundo.

As mãos separadas rapidamente.
Os corpos nos mesmos lugares.

No ar o desentendimento entre um amor que começa
E uma amizade que não mais engana.

Prova


Preciso dormir.
Conto as horas que vão passando
Sem piedade.

Porque horas não me dão respostas?

Daqui a pouco preciso acordar
E esperar portas que se abram,
Ao acaso.

Digo ao destino que não me faça como sempre
(Quero intuir que não há movimento no ar).
E talvez nem me canse.

Cai uma chuva forte lá fora,
Sem avisar, debochada,
A encerrar um dia estranho
E tornar lavados os impactos dos calores e dos frios.

Não pedi que chovesse,
E nem seria preciso,
Ela viria de qualquer jeito,
Sem aguardar meu comando

Vejo que existe Deus.


Pouco sinto falta de Amor


Raramente sinto falta de amor,
(hoje foi um dia)
Mas não do amor cego de mim
(quero quem me veja e me enxergue)

Amor de amigo,
De primo, de irmão,
Amor de gratidão,
De amante bem casada,
Amor mesmo, de nada.
Amor que não espera.

Dispenso o amor que tem sistema testador próprio
E permanente para quantificar o seu amor,
E  que quando vai embora leva com ele as preciosidades da sua alma

Amor que mede e mensura, avalia e sentencia
Amor baseado em controle de qualidade.
Fico mesmo sem amor

Talvez um dia ainda possa amar
E tanto melhor se não fizermos planos, projetos;
Se não tivermos metas
(em geral para nos corrigir)

Eu existo e isso deverá bastar ao meu amor
E vice-versa.

Pouco sinto falta de Amor


Raramente sinto falta de amor,
(hoje foi um dia)
Mas não do amor cego de mim
(quero quem me veja e me enxergue)

Amor de amigo,
De primo, de irmão,
Amor de gratidão,
De amante bem casada,
Amor mesmo, de nada.
Amor que não espera.

Dispenso o amor que tem sistema testador próprio
E permanente para quantificar o seu amor,
E  que quando vai embora leva com ele as preciosidades da sua alma

Amor que mede e mensura, avalia e sentencia
Amor baseado em controle de qualidade.
Fico mesmo sem amor

Talvez um dia ainda possa amar
E tanto melhor se não fizermos planos, projetos;
Se não tivermos metas
(em geral para nos corrigir)

Eu existo e isso deverá bastar ao meu amor
E vice-versa.

Perguntas



Já não te reconheço mais
Nem a mim também
E nem tampouco te projeto no tempo.

Viemos de onde?
Da rua abraçada pela metrópole tropical
Dos nossos primeiros dias,
Abarrotada de pessoas e suas coisas?

Ou foi das noites caladas no pé daquele serra,
Assistidas pelo nosso medo de bichos peçonhentos,
Quando nos aventuramos à solidão de “fazer américa”
Um pouco mais tarde?

Não sabíamos que estávamos juntos
Mesmo quando embalamos em dupla os frutos das nossas carnes.
Pelo menos eu jamais me imaginei sem você,
Por mais incrível que isso possa parecer.

Não nos vale mais a pergunta seguinte
Na primeira pessoa do plural.

Para onde eu vou, agora?
(é o que nos vale, pois deslocamos o pronome)
Para a velhice próxima e certa,
Mais, ou menos, satisfeitos, quem pode saber?

Nenhuma resposta importa mais.




Para Denise Jean


O tempo nos reduz a todos,
Os que caminham e os que contemplam,
Àquilo que somos (e sempre fomos)
Em essência, embora não percebêssemos.

Só por isso os dias passam depressa
E deixam em nós seus registros inadvertidos:
Para que nos salvemos do que queremos ser.

Ao final,
Despidos da enganosa juventude,
Sobramos nus de alma.

Nascemos, enfim

Não sei amar

O que sinto me desautoriza.
Não tenho jeito para o amor.
Amo torto, mal-traçado, sem explicação.
Não sei amar.

Queria, mas não posso te abortar de mim,
Sangraria até a morte.
O coração que carrego é o seu.
Você respira no meu peito.
Minha carne é que te sustenta.

Ilusão de te expulsar,
Arrancar,
Te jogar fora,
Mas tudo o que consigo é perder-me,
Só de tentar.

Vive em mim, então.
Até quando quiser.
Não luto mais.

Meditação





Busco o silêncio,
A ausência de convicção,
A superação da ideologia,
A divindade que só se pode encontrar na falta,
No vazio.
O caminho do registro de mim nos cadernos da realidade.

Lanças (Outra Versão)



Lanças me atravessam.
As piores partes de mim,
As mais doloridas.
O medo, algoz idoso e viciado em mim,
Em nunca me deixar
O rancor, que me dilata e soqueia o estômago.

Descem do céu ainda mais lanças.
O ciúme que me arrebenta;
O arrependimento que me atormenta,
A intolerância que me separa em vários.

Lanças pontiagudas me acertam sem piedade.
O desamor que eu não entendo,
A cólera estonteante que me perde a cabeça,
A impotência diante daquilo que já foi.

Minhas setas violentas.
O inconformismo pelo que se perdeu na inconsciência do tempo,
O desespero pela ausência de resposta,
O enjôo do grito mudo que se revolta na alma.

Lanças por todos os lados me estilhaçam o corpo exposto.
De tudo o que eu não desejo, mas não posso evitar,
Minhas fraquezas e limites,
Meus anseios vazios e certezas arbitrárias.

Ataque de lanças  
Minhas faltas e erros,
E elas cortam, cortam, cortam,
Minha respiração cansada e ofegante,
Meu Imenso orgulho tolo,
Todo o meu cabedal de absolutas razões enormes, sem fim,
Minhas convicções antipáticas,
Minhas palavras habilidosas e agressivas.


Lembretes velozes daquilo que não fui,
E também do que sou.


O que me sobra de mim mesmo?

Se eu desistir de lançar,
De me proteger,
De reconhecer, chorar e tornar a atacar,
As vozes dissonantes e próximas da poesia
Talvez possam me encantar e libertar dessa guerra inútil e estéril,
Como são todas as guerras,
E me fazer conhecer um pouco de paz.

Entregar lanças e escudos aos depósitos perdidos
Da memória daquilo que foi.

Talvez por fim eu vença quando perceber que não há o que vencer.
Quiçá  perceba que desta batalha solitária não haverá vencedor.

Fuga




Me dou conta: o tempo realmente passou.
Do que não entendo,
Não controlo ou domino,
Daquilo que não me faz sentido,
Do que me desafia porque articula-se sozinho,
Corri minha vida inteira,
Disfarçadamente e,
Mais agora,
Sem disfarçar mesmo.


Resgate, palavra agoniante.
Voltar atrás,
Perseguir,
Tornar a ver,
Tentar não perder o que já está perdido.

Reviver, restaurar,
Se possível recuperar.

Ah, meu Deus!
Se eu me voltar para o que deixei que ficasse atrás,
Se eu iluminar os escaninhos esquecidos do passado,
Haverá o que descobrir que não apenas o mofo do abandono?





Sigo confiando
Agora no já quase impossível.
Entretanto, não me peça, por favor,
Que não me preocupe.

Deixo o céu falar por mim,
Com seus azuis transformados pela luz
Ao longo do dia,
Para dizer que ainda vejo a manhã
E reconheço mais um início.

Me mantenho vivo.

Eu silencio, Tu silencias



Amigo meu,
(se te posso chamar assim)
Não me fala dos meus defeitos
(deles eu já sei demais)
Eu também não falarei dos teus.

Vai, abre-te os braços
E chama meu nome
Deixa que eu te abrace.

Se chorarmos,
Pouco ou muito,
Em silêncio, tanto melhor.

Sairemos daqui juntos,
Caminhando devagar
(não temos pressa)
E, se formos mesmo amigos,
Nada teremos a nos dizer,
Nem elogios,
Nem críticas.

Vamos andando um pouco,
Olhando o mar que lá fora está,
Confessando as dores que já sentimos
Das mais distantes rindo muito, se possível.

Temos sorte
(Haverá um bonito por de sol)
E entardeceremos juntos.

A essas alturas
Já não duvidaremos mais das nossas presenças.
Estaremos prontos para o amanhã.

Consciência




Jamais passei da fala, do discurso, da abstração.
Fugi uma vida inteira das atitudes,
Do concreto,
Da manifestação das minhas próprias vontades,
Que restaram embutidas no arfar da minha respiração peitoral
E nos movimentos dos ácidos do meu estômago.

Cave de Desejos



Desejos contidos,
Estranhos,
Exagerados e
fora de ordem,
Me  lançaram fora de mim.

Desejos classificados e reconhecidos;
Desejos oficiais,
Valorizados e devidamente autorizados,
Me afastaram do que sou.

Desejos mal entendidos,
Pelas metades,
Confusos e rejeitados,
Me tomaram mais tempo do que deviam.

Desejos naturais,
Compartilhados,
Aclamados e na maior parte das vezes aceitos,
Me amedrontaram, pois não viviam sozinhos.

Todos depositados em uma cave escura.


Às Margens


Alegorias do meu destino.
Grandes tambores barulhentos
A soar nas salas perdidas das minhas memórias.
Distração.

Pisca-pisca colorido e enganador.
Um desvio.

Gentes e fatos periféricos,
Pouco importantes,
Que tomam o lugar daquilo que é.
Só pode ser Ilusão.

No espelho, meu olhar de menino perdido,
Se equilibrando nas margens.


terça-feira, 30 de agosto de 2011

Perdi a Bagagem


Não levo nada na despedida.
Mãos vazias

Juntei poemas,
Embora eles não encham malas  
Ou papos de passarinhos famintos.

Colecionou algo?

Não achei o que guardar e só recolhi lembranças
E essas são como os poemas,
Não se avolumam em sacolas da alma.


Caos


Duas moedas de pequeno valor
Fazem-me vir à tona do meu próprio caos.

Moedas não vistas e não contadas
Talvez nem sejam de fato reais
(Só não duvido do som do metal batendo na lata)
Me resgataram e me devolveram a mim,
Pelo gesto.

Tenho medo de enlouquecer
E me agarro à duas moedas
De pequeno valor.

Não sei mais o que é real:
Vontade inconsciente,
Crença inexplicável no invisível,
Minúsculas vitórias diárias,
A esperança que se lança ao pé do desespero,
Todas as manhãs e seus recomeços.

Me recolho e espero.

Dignidade


Escrevo, pois não me resta outro ofício
A mim sobrou lápis e papel,
Mais nada.

Vivo em pêlo do futuro,
Considero possibilidades,
Mas não sou livre
Sinto dor
(ainda não encontrei alegria)

Apesar disso,
A cada palavra bem ou mal dita
(é o que menos importa)
Me surpreende a dignidade
Dos meus sentimentos expostos.

Sua benção, meu filho

Filho querido,
É verdade que o amor dói
(dor de sapato menor que o pé)
Sensação de que se vai explodir
De tanto querer bem.

Exagero de cuidados, eu sei,
(ainda vejo em ti o menino que abria os bracinhos,
No colo da pajem, ao me ver na porta da escola).

Mas, olha, não te quero prender
Estou feliz porque és livre!
Sabes que estou ao longe,
Velando a tua estrada,
E que não vou sair daqui.

Dá teus passos em direção do teu destino
(Eu também dou os meus)
E sei que tu também me olhas, amoroso.

Basta que nossos caminhos sejam abençoados um pelo outro.

Recomeço

Andei escrevendo umas coisinhas. Como o O "assim vejo o mundo", meu blog abandonado, não por vontade mas por esquecimento (esqueci o endereço de e.mail que usei para criá-lo) não pode ser resgatado, criei este novo. Os amigos que vez por outra o visitavam estão convidados a viver um pouco do meu mundo agora neste  "Olhar de Relance ", que nasce hoje mais à vontade do que o primeiro, menos tímido, mais desavergonhado, com mais intimidade com as palavras. As coisas se movimentam em um crescendo, quer tenhamos consciência, ou não, e o rumo desse crescimento quem define somos nós. Venho tentando me encontrar nesse universo possível que é a escrita.