Lanças me atravessam.
As piores partes de mim,
As mais doloridas.
O medo, algoz idoso e viciado em mim,
Em nunca me deixar
O rancor, que me dilata e soqueia o estômago.
Descem do céu ainda mais lanças.
O ciúme que me arrebenta;
O arrependimento que me atormenta,
A intolerância que me separa em vários.
Lanças pontiagudas me acertam sem piedade.
O desamor que eu não entendo,
A cólera estonteante que me perde a cabeça,
A impotência diante daquilo que já foi.
Minhas setas violentas.
O inconformismo pelo que se perdeu na inconsciência do tempo,
O desespero pela ausência de resposta,
O enjôo do grito mudo que se revolta na alma.
Lanças por todos os lados me estilhaçam o corpo exposto.
De tudo o que eu não desejo, mas não posso evitar,
Minhas fraquezas e limites,
Meus anseios vazios e certezas arbitrárias.
Ataque de lanças
Minhas faltas e erros,
E elas cortam, cortam, cortam,
Minha respiração cansada e ofegante,
Meu Imenso orgulho tolo,
Todo o meu cabedal de absolutas razões enormes, sem fim,
Minhas convicções antipáticas,
Minhas palavras habilidosas e agressivas.
Lembretes velozes daquilo que não fui,
E também do que sou.
O que me sobra de mim mesmo?
Se eu desistir de lançar,
De me proteger,
De reconhecer, chorar e tornar a atacar,
As vozes dissonantes e próximas da poesia
Talvez possam me encantar e libertar dessa guerra inútil e estéril,
Como são todas as guerras,
E me fazer conhecer um pouco de paz.
Entregar lanças e escudos aos depósitos perdidos
Da memória daquilo que foi.
Talvez por fim eu vença quando perceber que não há o que vencer.
Quiçá perceba que desta batalha solitária não haverá vencedor.
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